quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Saga Maria - A Salvação


But there's a side, to you, that I never knew, never knew. All the things you'd say, they were never true, never true. And the games you'd play, you would always win, always win...

Te encaro, mais uma vez, como aquela invenção maluca que mais deu certo do que o certo. Te vejo entre aspas, é claro, mas sempre com aquele toque de presença. É como se eu tivesse te criado ao meu gosto - já te falei isso, não?! - e que qualquer coisa que você faça seja planejado. E como eu planejo... Talvez seja uma mistura de cuidado fraterno com aquele vou viajar com você no final do ano. Mas o controle foge às vezes com o zelo. E, no mais, taí você fazendo a cabeça com alguém, que finge ser alguém - pra mim - e às vezes não passa de qualquer filho da puta começado com Rê - e terminado com Nato, de nascido trouxa. Mas foda-se! Na verdade, to rindo sincero do meu ciúmes fraternos.
 
O ponto é que você me faz algum bem. Mesmo distante, mesmo presente-ausente, mesmo jogando o puto do jogo do meu celular. Mesmo me deixando dormir ao seu lado, na mesma cama*, e agradecendo a hospitalidade depois. O ponto é: não há de Anas que te farão menor ao meu ver. Elas gostam de pandeiros e de maquiagens roubadas, enquanto cê curte aquele cara que fala de chilenos e Renatos como se fossem os mesmos. Não há medida, mas há senso. E se a tal da Ana não me deixa dormir pelo gostar, então você me deixa dormir porque sei que te tenho logo menos. 

Outrora, já escrevi melhor. Essa é só um pouco da nossa saga. Salve o álcool, salve o porre. Mas, ainda assim, Mafê, meus dias ainda são contados em horas-Iaiá.

Um beijo prás Falklands.

Te encontro por aí.

Saga Maria - O Desapego

Olha lá!, quem vem do lado oposto vem sem gosto de viver...


Taí a minha liberdade pressuposta enquanto ímpeto carnal. Esqueço de quantas Marias se faz um universo, e de quantas outras-nem-sei-o-nome me constrói o cotidiano. Esqueço ainda que todo dia ela faz tudo sempre igual, e que é pra eu me cuidar. Descuido; deixo as tralhas de lado e viro a página como se fosse jornal. Mas isso é livro, e toda palavra tem seu conceito; toda tralha tem seu almejo.

Quem dera fosse uma poesia. É mais um gorfo de sentimentos voláteis - infelizmente. Te vejo longe, talvez amando, enquanto eu sofro de qualquer coisa patológica: câncer retal, hipotireoidismo, candidíase, lepra, hipocondria e, por fim, Ascaris lumbricoides. E vem com força trovejante, como se minhas entranhas me consumissem a cada inspiração. Mas como qualquer sofrimento, um quê de decadência me faz crer que todo peito nu à minha boca é motivo pra querer longe a felicidade. Outras carregam um desejo insaciável. Isso basta! Basta, eis que te vejo escondida, com um grau de culpa incurável, que acha medicina suficiente pra curar a minha ferida exposta com sal grosso e reza braba. Se fodeu! Te quero tão longe quanto a minha certeza.


Me derrubo frente aquela famosa esquina da Angélica. Aquela - lembra?! - que foi motivo pra tantos beijos incertos e tapas inexistentes. Aquela... Você quis a minha palavra. Te dei e te fiz chorar. Ora, que fardo! Te dei também a noite sob meu teto; sob meu conforto; sob o meu prazer. E foi mais pra te ver dilacerar em instintos de mulher. Foi minha alforria. Acordei como se não houvesse Marias. Havia. Não aquela que dormia entre meus braços, mas ela. A mesma que acordou e disse "tchau" sem ao menos se perguntar "por quê". Ainda assim - FILHA DA PUTA! - uma Maria. Enfim, acordei, como se houvesse tanta vida após a vida. Acordei pensando em tantas outras. Alforria. 

O mais engraçado é te ver entre tantos quês, sendo o que mais me importa é te ver queimar...

Saga Maria - A Paixão

Você sabe disso. Cê só consegue escrever quando está desiludido com o tal do 'amor'. 

Se fosse, não estaria mais aqui para contar história. Um bem querer que mal me quer e que me atormentou  como se fosse um monstro do armário; e quis como uma bala Fini; e quis como se fosse meu, minha. Quis tanto que descobri o céu em cada travessura sua, que mais importava em uma companhia vulgar pra um almoço. Pra mim foi só redenção. Descobri o inferno do gostar

E aí vem todo o ônus da presença. O mimar fica ordinário, a constância torna-se credo e o prazer vem no beijo roubado-sem-culpa. E termina em abraços e sexo mal resolvido. Mas o ônus sobrevive. Toma formas inimagináveis, de trejeitos irreparáveis, ao ponto de querer saber daquele filho da puta que te roubou o meu domingo. Descubro o sujeito composto. Sofro. E dói... E você não faz ideia... Descubro a sua liberdade. E dói... 

Mas ainda assim sigo pelas tantas de Perdizes, sempre traçando as ladeiras, descobrindo qualquer método que me faça mais magro - talvez - e mais ativo. Mas o C3, seja ele qual for, está em cada esquina, me esperando com qualquer sorriso, me roubando um trago em toda falta de fôlego. O C3 não existe. "A placa não é de Barueri...". Deixo um bilhete-garrancho no vidro. Ela deve perceber... Volto como se a semana findasse na incerteza do próprio fim. Termino em garranchos outra vez. 




É complicado, Sunshine, mas amo outra. O ônus perdeu-se nas ladeiras. Mas se você conhece tão bem essa personalidade conturbada, vai saber que da incerteza eu nada sei. As ladeiras continuam lá...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Diálogo entre extremos

- Olha, cá estou com uma das suas putas.

- Quem? A Betty? Ela não vale nada.

- Ahn?! Ela chupa como ninguém. Talvez você devesse conhecer melhor suas mercadorias.

- Conheço muito bem, tanto que sei o preço que cobro.

- Se soubesse mesmo, não a deixaria se apaixonar. Noivamos hoje.

- Betty, sua filha da puta! Vai casar com um pinto mal lavado, que nem conhece tantas outras bocetas e, ainda por cima, vai ter que me pagar o que deve, sua puta!

- Hey, viado, olha como fala com ela! Aposto meu casamento que seu caralho nunca conheceu uma boca tão formosa quanto esta.

- Não me interessa! Bocas são sempre as mesmas, todas iguais, mas nunca tão intensas quanto um cu virgem.

- De cu você mal entende, bicha. Gosta de levar uma no rabo, isso sim! Casaremos em meados de setembro e ela quer que você seja o padrinho.

- Fodam-se ela e suas fantasias matrimoniais! Agradeço o convite e digo que serei, sim, seu padrinho. Mas nada lhe darei de presente, nem mesmo um abaraço de felicidades.

- Foda-se! O recado tá dado, a puta agora é séria e minha.

- Haha!... Ainda assim, outros tantos caralhos conheceram aquela boca suja.

- Como assim?

- Nem uma bacia cheia de Colgate com água sanitária afastaria aquele cheiro pérfido de pinto chupado. Fica assim o meu conselho: bocas limpas não declamam poemas. Até mais.



E viva(m) as metáforas [que estão bem além das minhas experiências, só pra deixar bem claro]!!!

domingo, 7 de agosto de 2011

Projeto 'Cartas desinteressadas' - Pt. 1

Maria,



Adriana esteve aqui por volta das nove ensolarada. Deve ter me achado no sofá, confortavelmente tonto, vestindo apenas minha cueca e a ressaca sonífera, sem, talvez, sentir pena. Não mesmo! Levou seus últimos pedaços que traduziam esse amor, entre eles sua sandália de sisal, que tentei esconder junto aos meus sapatos, e sua foto 3x4, que enfeitava meus cartões do banco. Deixou apenas sua chave do apartamento atrelada àquele chaveiro odioso da Torre Eiffel. Nenhum bilhete me seria mais direto, mas mesmo assim revirei cada canto em busca daquele garrancho tão belo dizendo “adeus”. Acordei lá pelas três, sufocado pela sede e pelo suor. Seu cheiro de cosméticos americanos já estava bem sutil, perdendo o conflito marginal contra o odor fumegante dos cinzeiros cheios. Esse adeus tá covarde.


Me tratei com um banho frio e com o resto do risoto que sobrou do último jantar no Faciello – aquele que mandei embrulhar e você achou demasiadamente desnecessário e vergonhoso. Comi frio e lento, talvez por não saber há quanto tempo estava na geladeira. Bebi o fundo do White Horse e te liguei. Sua indiferença não me fora propriamente explicada, mas aceito a versão de sempre. Não saberia o que falar, mas talvez te chamaria para um drinque no bar daquele hotel novo perto da sua casa. Sei que você me responderia com um não e me convidaria para jantar. Sei também que tentas me afastar do álcool; eu só aceito por pena. Tardes quentes de terças-feiras só me agradam quando fico nu, sentindo o vento raro, que vem da janela, atravessar meu corpo enquanto leio o jornal. A finitude do cigarro foi o que me fez vestir algo decente e sair desse inferno bagunçado.


A ressaca se transformava aos poucos em uma vontade demente de atravessar o parque em ritmo de trote. Malditos sejam meu fôlego e meu cardiologista! Comprei água numa banca e dei de cara com sua tia na capa em uma dessas revistas de fofoca. Gastei dez com pura futilidade. Queria mesmo era ler, com uma dose funda de escárnio, o escândalo épico da velha. Prefiro sua versão; não havia tantos detalhes fétidos como na publicação. Arranquei as fotos dela e joguei o resto na primeira lixeira. Voltei caminhando. O dia insistia na claridade, mesmo que meu relógio apontasse mais de sete. Olhei ao redor e vi várias Adrianas. Sentia seus cheiros e seus olhos macios, suas vozes roucas, seus cabelos ondulados. Acreditava na ilusão e assim era melhor; era melhor tê-las todas ali, há poucos metros, do que imaginá-las longe, furtando seus pedaços de meu apartamento. A ilusão é doce como um limão vermelho.


Deparei-me com a Rita conversando forçadamente com o porteiro novo do meu prédio. Vestia roupas discretas, que nada tinham a ver com seu ofício. Não cheirava cigarros nem suor alheio. Me cumprimentou com uma desgraça do desconhecido, terminou o assunto das margaridas e me acompanhou em passos curtos. A conversa do elevador não rendeu sequer dois andares até o décimo, e quando me dei conta, lá estava a pequena loira, desfazendo minha desordem de copos sujos e garrafas vazias. Serviu, arbitrariamente, sua taça com um Prosecco antigo, que guardava para qualquer ocasião mais especial do que aquela. Nossos olhares se cruzavam firmemente, a espera de alguma iniciativa. Foi a conta de manchar o cristal de batom e já nos beijávamos. Sexo, minha cara, não se faz, inventa-se. Gozei duas e ela algumas, mas o suficiente para me cansar em tédio e fazê-la cair naquele sono pós orgasmo. Perguntei-lhe, ainda enquanto amaciava seus olhos cansados sobre o travesseiro, quanto me cobraria. O grunhido da resposta fora seu pro bono. Saí da cama por pena e vim te escrever. Não gosto dessa sua distância; sua presença me conforta tanto...


Peco pela brevidade da carta e pelo meu desespero ébrio.



Um beijo

Renato Graussman




(não revisei ainda. pode editar qualquer passagem, ou corrigir qualquer erro)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Laranja podre

A confiança costumava ser pressuposto de mútua compreensão entre homens. O que eu vejo, sinceramente, é que ela é um fim em si mesmo. Eu não a perdi, apenas tornei-a flexível e desinteressada. Let all the children blue again.



Saíra muito tarde de seu escritório. O frio molestante do inverno paulistano entupía-lhe as entranhas com seus ventos cortantes e sua garoa cinza. Caminhava apressado, de uma maneira curiosamente patética: mãos no bolso e passos curtos, sempre ziguezagueando na mesma calçada. Sua expressão é tão obscura quanto a madrugada ali no Arouche, mas sempre se expressava por si só. Por isso, andava calado de pensamentos, em mútuo silêncio com sua consciência.
Aos poucos a garoa engrossa, o passo alarga, a dor começa. Os mendigos se escondem, somem; poucos carros passam apressados, buzinando, eventualmente. Vê tudo como um grande circo, e isso basta! Gotas de chuva-fria escorrem aos montes por todo seu corpo, sem, todavia, incomodá-lo. Entorta algumas ruas à direita, segue reto, sempre ligeiro, e encosta no próximo ponto de ônibus.
Um garoto magro, não mais velho do que le petit prince, encontra-o e dá início à oratória. As justificativas da miséria são sempre as mesmas, e esmola por esmola não justifica nada.

- Sabe como é, minha mãe tá la em casa cuidando dos meus irmãos...

Olha com um desprezo aterrorizante, aumentado ainda mais pela hierarquia pressuposta. Não responde; continua enconstado. O garoto vira às costas, sem antes ser interrompido por aquela voz ecoante no silêncio errante.
Queria mesmo era o pó, assim, bem seco, frio, direto e diabólico. Correm até a próxima marquise. Negociam unilateralmente, mediados por uma 9 mm tentadas a estourar a cabeça reduzida e raspada do pequeno príncipe. O que é justo se resolve com um dedo no dinheiro, outro no gatilho.
Separam-se. Ainda muito molhado, resolve cheirar todo aquele precipício. Corre; corre; e corre da mesma maneira patética de sempre. Atravessa prostituas, travestis, outros drogados, enfim, o lixo fétido de sua consciência. Vê o menino de longe. Ele dá todo seu dinheiro à mãe gorda, vestida com um colant vermelho de renda. E ela, fumando um cigarro, retribui com o ônus dos tapas e punições maternas.
Aos poucos, diminui a velocidade, aproximando ofegantemente da cena repugnante. Saca a arma; dispara três vezes contra o peito do pequeno príncipe; imobiliza-se e se ajoelha sobre a breve poça de sangue. Quisera ouvir as últimas palavras do garoto, mas o desespero da mãe-puta calou até os mais sinceros gemidos de dor. Mata a gorda.
Só sai. Anda, agora, serenamente. O dia dá as caras com o típico ar de sexta-feira. Por um breve instante, remonta a expressão sincera do petit baleado. Para desacreditado. Mas o breve instante só é instante porque é breve. Liga o carro e vai trabalhar.




He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it;
Let the children use it;
Let all the children blue again.

Starman - David Bowie

sábado, 28 de maio de 2011

Da entorpecência

All you need is to follow the worms (Roger Waters).



Acordo lá pelas duas (da tarde) sentindo aquele gosto de moeda na boca. Quem me dera se o doce viesse me ocupar, tirando aquele bafo de ressaca-de-augusta. O dia se prolongou intediante, quer dizer, ordinário. Cerveja, gol do barça!, cerveja, cigarro, cerveja, banheiro... Tudo me parece milimetricamente projetado. É como se pudesse prever as palavras vagas de intelectuais - que só sabem ser intelectuais - e de corpos insatisfeitos com suas funções medíocres de "encher linguiça". Bebo de novo e já tô pra lá: pra lá de Iaiá, pra lá da Tropicália, pra lá de Marias, de Fernandas, de essencialidades - e ahh! como ela me é essencial! Me escondo por ora; me revelo exposto outrora. Mas sempre no intuito de uma necessidade particular de, ou me remeter a sua ausência, ou de superá-la com a entorpecência. O que era pra ser breve se prolonga entre ruas bêbadas de Perdizes. São subidas e descidas, que sempre pedem aquele cigarro-de-misericórdia, adornadas com tombos, discussões, moralidades e, nos finalmentes, gargalhadas. É complicado admitir, mas amo mais os bêbados e seus caprichos do que a minha existência, que finge ser ébria quando é sã, e que é maluca quando quer ser séria.

Apesar (de você, amanhã há de ser...) de toda firula, este lixo - escrito numa escrivaninha apertada - quer mais falar sobre como sou curiosamente feliz e incompleto quando me vejo só e saudosista. Tá, é um contra-senso, e talvez eu ainda esteja bêbado, mas é sobretudo sincero. E provavelmente as palavras sejam poucas - como sempre são. Mas sou mais um homem frágil do que um poeta. E isso não merece muita especulação, mas somente a conclusão: seria bem melhor a entorpecência a dois. Daquelas que a gente mal percebe e já tá brincando de tirar a roupa, passar a noite numa cama apertada, acordar, pensar em falar que ama - mas não fala por orgulho, ou porque sente muito mais do que isso - e levar na memória uma quase paixão, que sabe me marcar, mas sabe me construir. Para isso, portanto, cito:

Now I've got this feeling once again
I can't explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb*


Por fim, senhorita, não, meu dia não foi assim tão agradável. E se você não percebeu, eu só quero saber do seu.




* Pink Floyd - Comfortably Numb