Um beijo prás Falklands.
Te encontro por aí.
Maria,
Me tratei com um banho frio e com o resto do risoto que sobrou do último jantar no Faciello – aquele que mandei embrulhar e você achou demasiadamente desnecessário e vergonhoso. Comi frio e lento, talvez por não saber há quanto tempo estava na geladeira. Bebi o fundo do White Horse e te liguei. Sua indiferença não me fora propriamente explicada, mas aceito a versão de sempre. Não saberia o que falar, mas talvez te chamaria para um drinque no bar daquele hotel novo perto da sua casa. Sei que você me responderia com um não e me convidaria para jantar. Sei também que tentas me afastar do álcool; eu só aceito por pena. Tardes quentes de terças-feiras só me agradam quando fico nu, sentindo o vento raro, que vem da janela, atravessar meu corpo enquanto leio o jornal. A finitude do cigarro foi o que me fez vestir algo decente e sair desse inferno bagunçado.
A ressaca se transformava aos poucos em uma vontade demente de atravessar o parque em ritmo de trote. Malditos sejam meu fôlego e meu cardiologista! Comprei água numa banca e dei de cara com sua tia na capa em uma dessas revistas de fofoca. Gastei dez com pura futilidade. Queria mesmo era ler, com uma dose funda de escárnio, o escândalo épico da velha. Prefiro sua versão; não havia tantos detalhes fétidos como na publicação. Arranquei as fotos dela e joguei o resto na primeira lixeira. Voltei caminhando. O dia insistia na claridade, mesmo que meu relógio apontasse mais de sete. Olhei ao redor e vi várias Adrianas. Sentia seus cheiros e seus olhos macios, suas vozes roucas, seus cabelos ondulados. Acreditava na ilusão e assim era melhor; era melhor tê-las todas ali, há poucos metros, do que imaginá-las longe, furtando seus pedaços de meu apartamento. A ilusão é doce como um limão vermelho.
Deparei-me com a Rita conversando forçadamente com o porteiro novo do meu prédio. Vestia roupas discretas, que nada tinham a ver com seu ofício. Não cheirava cigarros nem suor alheio. Me cumprimentou com uma desgraça do desconhecido, terminou o assunto das margaridas e me acompanhou em passos curtos. A conversa do elevador não rendeu sequer dois andares até o décimo, e quando me dei conta, lá estava a pequena loira, desfazendo minha desordem de copos sujos e garrafas vazias. Serviu, arbitrariamente, sua taça com um Prosecco antigo, que guardava para qualquer ocasião mais especial do que aquela. Nossos olhares se cruzavam firmemente, a espera de alguma iniciativa. Foi a conta de manchar o cristal de batom e já nos beijávamos. Sexo, minha cara, não se faz, inventa-se. Gozei duas e ela algumas, mas o suficiente para me cansar em tédio e fazê-la cair naquele sono pós orgasmo. Perguntei-lhe, ainda enquanto amaciava seus olhos cansados sobre o travesseiro, quanto me cobraria. O grunhido da resposta fora seu pro bono. Saí da cama por pena e vim te escrever. Não gosto dessa sua distância; sua presença me conforta tanto...
Peco pela brevidade da carta e pelo meu desespero ébrio.
Um beijo
Renato Graussman
(não revisei ainda. pode editar qualquer passagem, ou corrigir qualquer erro)